
esse som aí é como uma linha contínua e torta passando entre as pernas como uma jibóia de duas cabeças, vai-e-vindo como ancas de um traveco, forçando passagem às estocadas como uma furadeira de impacto, como um homem sem paciência, mas fina como a linha azul e incerta do incenso, mas densa como um projétil de chumbo, mas venenosa como uma mulher de cabelos anelados e como esses cabelos ardilosa, essa linha de baixo infiltrando o sangue, entorta as veias como arame farpado, forçando contorções e arrancos de epléptico, de bailarino, de craque de bola, de paralítico; esse som falando direto e torto ao baixo corpo, sexo entre movimentos, amor entre raivas – essa linha rasgada, lacerada, picotada, estuprada pelo cerol gritado, pelo saco de furores que esse grito cantado do sax atravessa e contamina de impurezas douradas, como se o gigante-do-pé-de-feijão caísse sobre a casa ao lado explodindo tripas perfumadas, discurso lancinante na voz dos cantores mudos, na língua das mulheres estupradas em coma por enfermeiros, parentes, vigilantes e outros que compram no paypal, uma ordem de socorro de quem não precisa salvação e se reparte entre todos os dramas vivíveis pelos demônios culpados – essa linha pisada pelo grave sem peso, pelo grave insustentável dessa voz de vela-de-sete-dias, dita entre o chão e o centro do mundo, desfilando insensível a horrores agudos, empurrando cinco dimensões ouvido dentro, rolando sobre a pele um tapete mal lavado com mel e esperma, sobre o qual singra como um rolo compressor com granadas e esgrimas e outras coisas que só sabe quem já ouviu.
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